FOTOS

A fotografia sempre foi em primeiro lugar um modo de olhar. Quando eu ando sem câmera, às vezes, me parece que não estou realmente vendo as coisas.
Com o tempo, me dei conta também que essas imagens representavam mais do que simples observações ou lembranças pessoais. Eles são registros de lugares, pessoas e lutas corajosas – e muitas vezes invisíveis – que mereceriam ser compartilhadas.




O acervo “CRÔNICAS FOTOGRÁFICAS” é o fruto de doze meses de ensaios e reportagens à sombra do Corcovado, acompanhando, longe dos circuitos turísticos, dezenas de coletivos autônomos que atuam no centro da cidade ou na dita “periferia”.

De um ano 2018 marcado pela prisão do ex-presidente Lula, pelo assassinato da vereadora Marielle e por uma campanha eleitoral de extrema violência, ele traz também registros de ocupações, eventos culturais (cada vez mais) independentes e militantes, ou de atos políticos de luto e luta.


Sem escapar do ponto de vista de “quem é de fora”, ele tenta olhar de forma íntegra para a paisagem urbana em toda a sua diversidade, seja dentro da favela, no meio do carnaval ou junto com movimentos sociais.

Collection exposée à la galerie Alimentarte et au Travessa Café (Porto Alegre, 2019)

Toutes les photos sur flickr : @Charlotte Dafol




A cidade de Rio de Janeiro apresenta uma necessidade habitacional de 420 000 moradias enquanto existem outros milhares de imóveis ociosos no município. A área ocupada pela Comunidade Povo Sem Medo é uma antiga fábrica têxtil, desativada há décadas, e acumulando uma dívida que ultrapassa dez vezes o próprio valor do imóvel.

Em poucas semanas, a ocupação Povo Sem Medo se transformou num pequeno bairro comunitário a céu aberto, sem polícia, sem tráfico, sem carro, mas cheio de crianças brincando livres nas ruas que surgiram entre as construções.
Desde os primeiros dias e durante mais de um ano, acompanhei essa teimosa aventura coletiva, registrando as incomensuráveis transformações do lugar e dos seus protagonistas, e fortalecendo com eles profundas relações de amizade e admiração.

Ao chegar no espaço, que encontraram insalubre e tomado por mato, cada núcleo familiar recebeu um lote demarcado no chão e numerado, onde lhe restava limpar e erguer a sua casa, contando com a solidariedade de todos os ocupantes e reaproveitando qualquer pedaço de madeira encontrado na rua. Se hoje em dia todos os lares têm fogão e geladeira, no primeiro mês, a cozinha era coletiva e a comida vinha principalmente de doações.

Coleção exposta na École Normale Supérieure (ENS Ulm, Paris, 2018), no Espaço 900 e na Casa Dê (Porto Alegre, 2019).
Publicada em Vacarme n°86 (février 2019).

Todas as fotos no flickr : @Charlotte Dafol





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